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Extra! Extra! Desvendado o caso do matagal*


Por Solange Pereira Pinto
Escritora e facilitadora do Ateliê Ato Com Texto





Foram encontradas ontem, no matagal da Vila Sésamo, as memórias de dois garotos, Garibaldo, 6, e Beto, 12. Perdidas há 34 anos, uma na entrada na pré-escola e a outra na aula de gramática e análise sintática, já estavam em avançado estado de putrefação da alegria, comprometidas com lesões abusivas e repressoras. Testemunhas afirmam que tudo aconteceu em 1976, por causa da rotina escolar e omissão dos pais. 

Na manhã de hoje, policiais do Batalhão de Choque para Sanidade Mental (BCSM) precisaram interditar o local, pois há muito não se via uma memória de seis anos tão saudável, repleta de sonhos e desejos. Pessoas que passavam no local se aglomeravam diante dos cordões de isolamento. “Eu nunca vi nada igual. Tenho um filho da mesma idade que só quer ver TV. Não sei mais o que fazer”, disse dona-mãe-de-Gugu. 

O conteúdo-futuro-projetado até a semana passada (de cada memória encontrada) foi analisado em laboratório e apresenta, segundo a perícia especializada em criatividade, vestígios de tortura, provavelmente causados por estrangulamento da imaginação, desestímulo parental e excesso de aulas expositivas. E, no caso de jovens adultos, a busca robotizada por concursos públicos. “É muito comum em casos de formação pessoal focada no sucesso financeiro e estabilidade profissional, amplamente estimulados pelos pais, que os talentos sejam sacrificados, assim como o prazer, para dar lugar a uma falsa sensação de bem-estar que pode vir bem comprometida, ocasionando doenças como estresse, depressão, tristeza, sentimentos de fracasso, inadequação, afastamento social entre outras”, afirma o doutor Aloysius Snuffleupagus. 

Entrevistado pela reportagem, Garibaldo, 40, que há dez anos toma medicamentos para depressão, faz terapia e alimenta a esperança que a apatia de viver desapareça, se recorda apenas que tinha uma mente privilegiada, adorava encher sua memória de vontades de menino e brincadeiras de viver até que lhe disseram que a partir daquele dia as coisas iriam mudar. “A professora disse que não podia mais levar brinquedo para escola e nem brincar, pois era coisa séria o negócio de aprender as letras e os números. Fiquei com medo do alfabeto invadir minha caixa de carrinhos”, diz pesaroso.


Com Beto não foi muito diferente. Hoje, aos 46 anos, lembra o quanto gostava de escrever antes de lhe forçarem a esquartejar sentenças e repetir conjugações verbais. “Eu era um garoto mais feliz até uns nove anos. Depois a minha vida foi se tornando um inferno, ano após ano, com tanto conteúdo para decorar e pouco espaço para criar, inventar, curtir. Muita regra e pouca liberdade. Para você ter idéia eram nove horários de matemática por semana e apenas um de artes. Acabei me tornando engenheiro para não escrever nunca mais. Embora meu sonho fosse ser escritor ou jornalista”, contou desiludido. 

Para Snuffleupagus, não apenas as crianças e jovens devem ser estimulados no pensamento e na linguagem com criatividade, mas também, e, principalmente, adultos e idosos para que não fiquem estagnados e exercitem o cérebro. 
Segundo as investigações tudo leva a crer que o reencontro com as memórias perdidas só foi possível após várias e insistentes buscas de autoconhecimento e ajuda de profissionais de comunicação criativa e outras terapias alternativas. O caso foi encaminhado para a academia, na qual cientistas sociais e de outras áreas estudarão conjuntamente o crescente fenômeno de petrificação-futura-das-ideias que tem acometido crianças e jovens em todo o planeta, gerando uma sociedade mais dura, fria, ambiciosa e pouco feliz. 

Garibaldo e Beto garantem que não farão o mesmo com seus filhos e que procuram frequentemente novas formas para se livrarem da cristalização de pensamentos, pouca espontaneidade e falta de ação criativa que suas rotinas tomaram. Veja mais sobre o assunto aqui

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*Esta é uma notícia real, embora todos os personagens sejam fictícios.


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Um comentário:

Laiz Marinho disse...

Muito bom! A maneira como você descreveu a forma como aprendemos ou melhor "desaprendemos" ficou incrível!!!

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