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O despertar da criatividade

Novos estudos revelam como nascem as idéias originais e as melhores estratégias para o desenvolvimento desse potencial
Edição 2038 - 26/11/2008

Em um mundo que pede cada vez mais criatividade para resolver com sucesso seus milhares de problemas, a ciência está empenhada em descobrir o que leva a mente humana ao insight - aquele belo momento em que as peças do quebra-cabeça se encaixam e uma nova solução aparece como se estivesse apenas esperando um chamado.



A boa notícia é que, a contar pelos resultados de pesquisas recentes, a capacidade de gerar pensamentos criativos é algo possível a todos. Ela pode ser estimulada a partir de uma feliz combinação de estímulos dados na hora certa, personalidade e uma boa habilidade de observação e de retenção de dados. Afinal, está confirmado que nutrir-se de informações variadas é a grande matéria-prima da criação. "Criatividade é apenas conectar coisas, e as idéias mais originais são aquelas que juntam conceitos diferentes entre si. Por isso, o melhor para ser mais inventivo é explorar o mundo. E, enquanto estiver aprendendo, prestar atenção ao modo como isso acontece", disse à ISTOÉ o psicólogo Keith Sawyer, da Universidade de Washington (EUA). "E quebre as regras. Veja o que acontece se fizer algo ao contrário. A única falha em inventividade é não tentar nada novo", completa Robert Root-Berstein, da Universidade de Michigan (EUA).


Essas conclusões estão baseadas em estudos feitos para decifrar as bases da engenhosidade no cérebro e os comportamentos que a fazem aflorar. Algumas das informações mais importantes foram extraídas de trabalhos que usaram aparelhos de exame de imagem para flagrar o cérebro trabalhando em tempo real no momento da criação. "Essa possibilidade de olhar como o processo está ocorrendo é fantástica. Chegamos a uma nova forma de mapear a atividade cerebral que está levando a novos entendimentos sobre o assunto", explica o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.



Um exemplo do que diz o brasileiro foi a pesquisa dos cientistas Charles Limb, do Instituto Nacional de Saúde, e Allen Braun, da Universidade Johns Hopkins - ambas instituições americanas. Os dois descobriram que, na hora do insight, o cérebro liga algumas áreas e desliga outras. Para chegar a isso, estudaram as alterações no cérebro de seis músicos de jazz no exato momento da improvisação. Os cientistas viram uma diminuição da atividade no córtex pré-frontal dorsolateral e a elevação da função no córtex pré-frontal medial.
Conclusão: na hora de criar, o cérebro tira de campo o setor que controla a adequação das ações ao ambiente e que antecipa e planeja como devemos nos comportar a cada momento.
Uma área solicitada, por exemplo, quando escolhemos as palavras certas para conseguir aprovação numa entrevista de trabalho. A novidade impressionou pesquisadores. "É surpreendente saber que existe um padrão bipolar: a desativação de importantes regiões durante uma atividade criativa, ao lado de outras fortemente ativadas", disse o neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


O professor de psicologia John Kounios e o neurocientista Mark Jung-Beeman, das universidades americanas Drexel e Northwestern, respectivamente, obtiveram outro retrato desse padrão. Eles compararam o funcionamento cerebral de criativos e de metódicos. Estudaram esses indivíduos antes e depois de um jogo durante o qual deveriam formar palavras com algumas letras impressas em cartas.
Descobriram que os imaginativos têm uma atividade mais intensa em uma área associada ao esforço para conectar informações. "É assim até mesmo em repouso, quando não há nada para resolver ou criar", disse Kounios à ISTOÉ. No mesmo estudo, publicado na revista científica PLoS Biology, a dupla descreve uma queda no ritmo de uma região responsável pelo processamento visual pouco antes de a solução emergir. "Pode ser uma forma de o cérebro afugentar informações que irão distraí-lo para se concentrar e trazer uma solução à consciência", disse à ISTOÉ o neurocientista Jung-Beeman.
Em mais uma pesquisa, ainda inédita, a ser veiculada no ano que vem pelo Journal of Cognitive Neuroscience, os cientistas investigam um pedaço do cérebro vinculado à gestação de idéias, o córtex cingulato anterior. "Ele parece ter papel importante na tarefa de colocar em evidência idéias guardadas no subconsciente que poderiam se tornar soluções. Os insights ou aha! começam no subconsciente e explodem na consciência em algum momento", explicou Jung-Beeman.

À luz dessas descobertas, vários conceitos estão sendo revistos. Um deles é que criatividade e inteligência são iguais e se equivalem. "As pesquisas mostram que grande parte das pessoas criativas tem inteligência média. Ganhadores do Prêmio Nobel em ciências apresentavam, na sua maioria, quociente de inteligência entre 120 e 140, o que não é suficiente para ser chamado de gênio", garante Robert Root-Berstein, da Universidade Michigan.


Outro mito sobre o qual recaem dúvidas é o do gênio solitário. E o principal artífice desse enfrentamento é o psicólogo Keith Sawyer. Autor de um best-seller lançado em 2007, o Grupo genial - o papel da colaboração na criatividade, Sawyer advoga que a saída para provocar a criatividade na vida e no trabalho é a criação coletiva. E se possível com gente que tenha cultura diferente da sua. "A maioria associa criatividade ao momento do indivíduo que tem uma nova idéia. Mas a colaboração é essencial para que essas idéias aconteçam com mais freqüência. É o que já se vê em empresas como o Google", disse o pesquisador. Um dos ingredientes que podem determinar o sucesso ou fracasso da criação coletiva é a aplicação do que o especialista define como fluxo da consciência. "Isso ocorre quando as pessoas trabalham em funções que correspondem às suas competências, têm um objetivo claro, recebem constante retorno sobre o andamento e obtenção da meta e estão livres para se empenhar completamente na sua tarefa", explica.

A ciência já permite afirmar também que a criatividade é algo que pode ser estimulado desde cedo, como se imaginava, mas sem nenhuma pirotecnia, como muita gente acredita.
Não é preciso cercar uma criança com novidades tecnológicas, por exemplo, para que ela se torne mais engenhosa. Ao contrário, os estudos demonstram que o segredo para estimular a inventividade na infância é deixar as crianças brincarem. Só isso.
"Deve ser uma brincadeira em que possam imaginar o que quiserem e no seu próprio tempo, sem a participação de adultos para estimular a obtenção de conteúdos", diz o médico e psicoterapeuta João Figueiró, da Universidade de São Paulo. Nesses momentos de introspecção, os pequenos traçam as tais conexões entre idéias que nutrem a inventividade. É o que faz Rubi Assumpção, seis anos. O resultado é uma garota imensamente criativa. Ela inventa e desenha histórias. Semanas atrás, por exemplo, quis fazer um desenho em homenagem ao pintor americano Jackson Pollock, sobre quem havia aprendido na escola. Sua mãe, a compositora e apresentadora de tevê Anelis Assumpção, sabe que a filha é criativa e procura garantir a ela tempo livre para brincar. "É muito ruim os adultos ficarem transformando qualquer brincadeira em algo educativo", diz.


Um pouco de distração diante de problemas difíceis também parece ter efeito. Foi isso que mostrou um trabalho publicado há dois meses pela revista da Associação Americana de Ciências Psicológicas. Os psicólogos Adam Galinski, da Kellog School of Management, e Chen-Bo Zhong, da Universidade de Toronto, no Canadá, pediram a 94 pessoas que lessem três palavras e preenchessem o espaço vago com uma quarta que tivesse relação com todas elas. Exemplo: o que combina com queijo, mar e céu? Segundo os autores, a resposta poderia ser azul. Depois dessa apresentação, eles mostraram mais nove questões bem mais difíceis. Em seguida, dividiram o grupo. Uma parte ficou atenta ao teste original e outra foi submetida a uma atividade para identificar palavras ou pedaços delas em seqüências de letras embaralhadas, entre as quais se escondiam algumas respostas do teste. Depois, os indivíduos fizeram o teste das correlações. O grupo que tirou a atenção do teste original deu as respostas mais rápido. "O pensamento consciente é o melhor para tomar decisões analíticas. Mas o inconsciente é especialmente eficiente para resolver problemas complexos. A ativação desse conteúdo pode fornecer faíscas inspiradoras para o insight", disse o pesquisador Adam Galinsky.
Talvez tenha sido a partir dessa associação entre distração e liberdade para o inconsciente que o grego Arquimedes (287 a 212 antes de Cristo), a quem se atribui a descoberta dos princípios de flutuação, chegou à sua famosa conclusão. Conta a lenda que ele tomava banho em uma tina quando um lampejo criativo o fez entender que seu corpo deslocava uma quantidade de líquido equivalente ao seu volume. Feliz com o achado, saiu gritando "eureka!", que significa achei, encontrei.


Bom humor é mais um elemento para essas combinações imprevisíveis.


Um trabalho do cientista Kounios, em via de ser publicado no Journal of Cognitive Neuroscience, diz que a criatividade se manifesta com mais freqüência e facilidade em situações nas quais prevalecem o bom humor e um ambiente positivo. Uma ampla revisão da literatura científica recente vai na mesma direção. "Brincar sobre coisas associadas ao trabalho e o humor entre colegas aumenta a criatividade e o desempenho global", diz Chris Robert, da Universidade Missouri-Colúmbia (EUA).


Mais uma tese interessante é a do neurocientista Gregory Berns, da Universidade Emory (EUA). Ele acaba de lançar um livro em que estuda o pensamento de gente que classifica como inconformista. A proposta de Berns é chamar a atenção do público para o que se pode aprender com pensadores inovadores como o líder negro americano Martin Luther King. "São pessoas que fazem o que outros dizem não poder ser feito. Para isso, desafiam as regras e não têm medo de fracassar", diz Berns. Ele garante ter descoberto mais uma característica que diferencia os criativos: a inteligência social. "Uma pessoa pode ter um conceito completamente diferente e novo, mas, se não tem capacidade para convencer os outros, nada conseguirá", afirma Berns.


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