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O pinhel








Eu que nunca aprendi a escrever...
mas aprendi a brincar de...
não soube até hoje se...



Brasília, 2 de outubro de 2008, mês das crianças
Por Solange Pereira Pinto




Quando eu era criança minha mãe brincava comigo de uma brincadeira que a mãe dela brincava com sua avó. Uma diversão passada pelas gerações, o "pinhel".


Uma brincadeira "brincada" com as mãos. Uma pilha de mãos dançando ao ar até desabar em cócegas na barriga de alguém. Normalmente, desempilhava na minha ou na do meu irmão menor.

Eu, com meus dedinhos pequeninos, beslicava a pele da mão de minha mãe em formato de concha, e o meu irmão beliscava a minha e íamos nos revezando em mãos até não sobrar qualquer uma solta. Depois das mãos apoiadas umas sobre as outras, fazíamos um movimento vertical, suspendendo e abaixando, repetindo a cada deslocamento a palavra "pinhel".


Assim se dava o "pinhel-pinhel-pinhel-pinhel-brululululu". O brululululuuuuu acontecia no desabamento das mãos até as costelas mais próximas. Difícil até de descrever essa lúdica brincadeira de toques e intimidade.




O tempo passou e o pinhel ficou. Pra trás. Ficou, também, na mente, na pele, no gesto, no gosto, na saudade... Na memória do corpo e da infância.


Há alguns meses, três décadas depois, eu relembrei dele e resolvi brincar com minha filhota de sete anos. Nem é preciso dizer o quanto ela adorou a brincadeira cosquenta.

No vaivém das mãozinhas e das pupilas, ela ri até desabar os dentes de alegria e a barriga a tremer de satisfação "pinhelenta".



Os olhinhos, fixados nos outros e procurando por vezes os dedos em pinça, podem se remexer em gargalhadas no segundo seguinte a uma piscadela. E a gente se diverte. E a gente se repete em pinhels (?).

No mesmo instante em que as mãos se desmancham em cutucadas risadas elas correm para se amontoar novamente e, assim, recomeçar a dança, que tem por graça o inesperado da fuga da mão adulta a procurar um lugar cheio de cosquinhas na criança.


Pinhel é assim: movimento e alegria. Quase uma cor que salta da barriga.


Só que...


O tempo gira. O cata-vento roda. A aurora surge e a gente não sabe de nada!


Nadica!


Até que...


A dúvida faz coceira dentro da cabeça e a gente fica doido de querer saber.


Foi assim...


Eu nunca tinha precisado escrever (como outras tantas devem ter) a palavra "pinhel" ou seria "pinheu"? Quem sabe "pinhéu"? Apenas passei anos e anos da minha vida "falando" pinhel. Sentindo o "pinhéu". Gargalhando com o "pinheu". E tudo bem. E eu ria. E não caiu no vestibular.


Como o que se vive não cai no vestibular e nem entra no currículo, é bobagem decerto. Ninguém precisou ensinar. Nem ninguém precisou saber escrever, afinal.

Até que, revirando um site de brinquedos de papel (sou uma eterna criança), dou de cara com uma palavra escrita que me faz relembrar a infância: "pin wheel" (traduzindo toscamente "pino roda"). Eu pensei: "céus é o meu pinhel!" Correndo, lá fui catar meu riso alto! Mas não era o meu pinhel! Ops, pin wheel (falado"pin-huiu").

A ignorância remexeu os dedos no teclado e fui ao dicionário inglês-português e achei o coladinho "pinwheel" (cata-vento e similares).

O vento não parou e a curiosidade aumentou. Como se escreve o MEU pinhel?

Pedi clemência ao Houaiss dei de cara com o regionalismo "douro", que é o mesmo que "caruma", que significa folha, quantidade, que por fim é igual a folha de pinheiro.


Uau! Pinhel vem de pinheiro! Que lembra o Natal (estrangeiro, mas tudo bem)! Que me lembra luzes saltitantes... que por fim me trazem presentes! Fiquei extasiada feito criança que junta sílabas e lê a palavra. Le-gal! Pi-nhel!


Ainda não era o pinhel da gargalhada! Continuei procurando um pouco mais, na santa internet e seus hipertextos, achei a Pinhel (foto) de Portugal. Agora com a mesma pronúncia do meu pinhel. Mais próxima e com castelo para contar histórias. Cujo nome "Pinhel", é claro, deriva da grande quantidade de pinheiros existentes por lá.


E nada de encontrar o pinhel de mãos!


Sem verbete para o meu, de pinhel a pin wheel, pinwheel, até Pinhel rodei como um pinhel. Cata-ventei até subir às torres do castelo de mãos e achei o que estava escondido de mim: o renascimento da palavra carregada de significados emotivos, sensoriais, afetivos, melódicos.


O pinhel falado ganhou sua roupa de letrinhas. Ganhou primos. Ganhou ascendentes. Ganhou, agora, no meu papel a forma de PINHEL. Assim maíusculo. Gritando sua importância.


Agora sim, ele existe na forma escrita e eu o batizei em grafema. O pinhel falado... que eu não aprendi a escrever... mas aprendi a brincar... o pinhel bolinado... que não sei de onde vem... o pinhel dos contos de réis e não de reis... o pinhel popular... da tradição oral... o pinhel feito de pinheiro de mãos que balançam ao vento até o topo chegar no chão para cutucar as costelas de quem ainda não aprendeu a ler e já sabe brincar... de falar... "pinhel-pinhel-pinhel-pinhel-brululululu".




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Crédito das fotos usadas nesta postagem:


1) blog.craftzine.com

2) visualparadox.com

3) bp0.blogger.com

4) ruimsc.blogspot.com

5) olhares.aeiou.pt

Um comentário:

Anônimo disse...

pinhé pinhé pinhné pinhé...

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