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Disseram que...

Cuidadosamente, coloco aqui neste espaço alguns registros de pessoas que confiaram (a mim) seus medos, dificuldades, bloqueios, "incapacidades" e tudo o mais que nós humanos podemos ser e sentir quando precisamos de alguém para nos auxiliar.  

Certamente, eu fui apenas facilitadora de alguns processos. E penso que estes depoimentos podem mostrar, um pouco, como o trabalho desenvolvido no ateliê Ato Com Texto é compreendido por aqueles que já passaram por aqui. 

Os nomes foram omitidos para preservar as identidades.



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Depoimento (publicação autorizada) de uma participante das oficinas de autoconhecimento pela comunicação e criatividade.







Percepção: expressar para mudar
Minha vida sempre imitou a arte..., ou melhor, a música "deixa a vida me levar, vida leva eu..." cantada pelo Zeca Pagodinho. Sempre foi difícil olhar para dentro quando o meu problema, aos meus olhos, sempre esteve para fora, no espelho, na minha aparência,  no meu corpo.

A percepção de eu "ser diferente" começou muito cedo com a ajuda de uma família zelosa, preocupada com minha "aparência". Esconder a diferença era essencial para ser aceita; eu lia nas entrelinhas dos conselhos "coloque uma calca comprida, fica melhor do que essa saia" ou "os shorts não lhe favorecem é melhor você trocar".

Quando eu "teimava" (expressão usada lá em de casa) em usar o que tivesse vontade percebia o olhar do outro e sentia desconforto com os comentários... Criança é sempre muito honesta nas percepções, mas verdades nuas e cruas vindas de forma tão inocente também deixaram marcas. Novamente os zelosos familiares pareciam ter razão, melhor não mostrar tamanha diferença... 

Com tantas emoções diretamente relacionadas ao "de fora", o "de dentro" teve que esperar. E esperou trinta e tantos anos. Lógico que, depois de um bom tempo, eu já racionalizava meu desconforto. Contudo, sabia que existiam raízes inconscientes, percebia como elas começaram, como eu as deixei continuar. Tudo muito bonito... Tudo muito racional.

Meus familiares zelosos, novamente, sempre preocupados comigo, com minha sensação de "não pertencer", proporcionaram alguns psicólogos de diferentes linhas. Foram anos de sessões interessantes onde, racionalmente, me vi frente a frente com os fantasmas.

Conversamos muito, quem me conhece sabe como adoro falar! Esclareci muita coisa, mas a sensação de não pertencer nunca foi embora. Eu entendia o porquê, só não conseguia parar de sentir.

Então, nos tais trinta e muitos, decidi me dar uma outra oportunidade. Solange me propôs uma terapia em seu ateliê (o Ato Com Texto) na qual EU não iria falar praticamente nada, mas sim teria que usar carvão para desenhar, massinha para construir, dedos molhados de tinta para trazer o "de dentro" para fora.

Primeiro pensei que seria difícil, já que meus dons criativos não são artísticos, porque é essa a primeira coisa que você "pensa". Se eu não desenho como vou ser terapeutizada corretamente? Como vou expressar o problema e obter a solução?

Porém, o método não era racional. Eu não precisava saber ou entender sobre as técnicas. Solange não dizia nada durante a sessão, ela “facilitava”. Esse termo é bem interessante! Usando o seu lindo espaço multicolorido e os diferentes materiais, a cada sessão, eu me via desenhando minha vida, construindo emoções que não sabia que ainda estavam ali comigo.

É importante dizer que, em todas as sessões, Solange propunha uma técnica para que eu “trabalhasse” (atuasse) em algo que sentia necessidade. Diferentemente das outras terapias que havia experimentado, eu usava o racional somente ao final da técnica. Ou seja, olhando para o que fiz “artisticamente” é que eu começava a entender o que estava sentindo. Mas não era um entendimento racional. Eu não havia pensado enquanto desenhava, eu apenas, inconscientemente, escolhia uma cor, fazia um circulo ao invés de quadrado e por ai vai. Difícil explicar, somente experimentando para compreender melhor. Nem eu, confesso, acreditaria somente de ouvir.

O grande "tapa com luva de pelica", que posso dizer que iniciou meu real (interno) processo de mudança, foi ver que as emoções estavam todas ali, guardadas, algumas quase intactas. E ninguém havia racionalizado nada. Eu, no final das sessões, era capaz de entender meus fantasmas de uma forma que nunca entendi antes. E ninguém havia racionalizado nada! Meus medos e receios e o porquê acreditava neles estavam lá em cores, em carvão, em massinha. Uma técnica depois da outra e o resultado era o mesmo... Eu exposta por mim mesma. Os zelosos já não estavam mais lá para me lembrar o que deveria esconder.

Não eram mais as crianças a apontar minhas diferenças. Sem perceber, sem racionalizar, EU estava lá. Chorei incontáveis vezes nas sessões, mas eram lágrimas de alívio. Eu agora era um interior, não mais um exterior. Eu desenhei e pintei meus fantasmas. Eles ficaram muito mais "bonitos" (aceitáveis?) em cores do que eram em preto e branco. Em cores eu pude fazer as pazes com eles, comigo, com as diferenças...

A luta pela mudança de percepção continua, assim como os trinta e muitos viraram quarenta e poucos, mas o entendimento que alcancei "vendo" minhas emoções me ajuda nos dilemas do dia-a-dia. Tenho o que preciso para "ver" e decidir, minha vida não me leva mais, eu levo minha vida para onde quero e posso ir.

Depoimento escrito por K.M.P.B (Ato com texto – 16.07.08)


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Cartas/fragmentos (exercício de avaliação de aprendizagem) escritos por  alunos do Laboratório da Escrita Criativa










Brasília, 25 de maio de 2010. 
                                    
Querida X, 


Você  não pode imaginar como estou me sentindo neste momento. Uma enorme necessidade de dividir com você todas as idéias que passam pela minha cabeça agora, e que nasceram há precisamente dois meses, numa aula que tive.

Sinto-me a mais poderosa escritora, e ansiosa por começar logo a soltar minhas experiências, filosofias, estórias, e todo tipo de pensamento saltitante, presente nesta minha mente sempre inquieta.

Imagine você, numa manhã de sábado, se perguntando o porquê de ter se matriculado num curso, que lhe exige presença e muito trabalho, e tendo a sensação de que depois de uma semana inteira de corre-corre, você está num lugar que não tem a mínima condição de sobreviver, dada a certeza de sua própria incompetência, tendo em vista ter se formado em uma matéria totalmente diversa daquela proposta pelo curso.

Pois é. Assim me sentia na manhã de 20 de março de 2010. Inútil, sonolenta, arrependida, mesmo por que já havia dado uma olhada na aula que teria, e não houve um sopro de animação extra. Mas para minha surpresa, o que aconteceu naquele dia me mudou muito.

De cara reconheci que a pessoa que ali estava, na mesma manhã de sábado, havia sido minha colega de colégio na adolescência, e logo comecei a me sentir melhor. Meu cérebro saiu daquele pensamento recorrente e voou para outro lugar. Um céu azul de admiração. 

Puxa aquela garota agora é professora. Amiga, que maestria ela tem em conduzir uma matéria. Que talento! Fiquei orgulhosa e ao mesmo tempo agradecida. A Solange (este é o nome da professora nata) está me fazendo acreditar que posso realizar meu sonho. Será que é isto mesmo que ela está dizendo? Passei a prestar atenção em cada palavra que ela dizia, parecendo uma menina aprendendo um ofício. Não queria perder nenhuma informação. Meu Deus! Por que a Solange não apareceu no primeiro dia do curso? Onde ela estava? Será que ninguém percebeu que ela era importante logo no começo?

Enfim, no decorrer da aula, minha vontade de desistir foi dando lugar à ânsia de me arriscar nas letras. Aquela criatura bondosa estava desmistificando monstros que eu alimentava há anos. Frases feitas que haviam se cristalizado em minha mente como verdades absolutas, conceitos que jamais ousei discordar, se desmanchavam à minha frente. Comecei então a me permitir jogar fora os adereços de mão que carregava por anos pela estrada, sem culpa.

Então será possível escrever livremente?  Desde o dia que tive a aula libertadora com a Solange, comecei a usar unhas de aço para raspar o reboco, arranhar os troncos das certezas petrificadas.  Os mitos foram caindo por terra, e levando junto com eles meus conceitos pré fixados, meus pensamentos concretados, meu raciocínio cartesiano. As letras, neste pouco tempo que passou, começaram a fluir. Sinto-me agora emergindo de casulos de seda, prestes a fazer um voo inaugural. Ufa! Quão longa e tenebrosa foi a metamorfose.

Quero colocar no papel cobras e lagartos, vespas e flores. Preencher cada espaço presente. A semente lateja, querendo logo brotar.

Passado o momento de dragões vencidos, donzelas inúteis, de castelos perdidos e cavalos robustos, agora posso escrever sobre o sol vermelho, o rio vizinho, pássaros cansados.

Sei que devo me lançar. Não tenho mais o julgamento me cerceando. Fora o cansaço! Abaixo o desânimo! Posso sentar-me nas últimas cadeiras, longe do palco iluminado e demonstrar assim mesmo a vida. Vou montar a partir de hoje meu próprio quebra-cabeça diário.

Termino esta carta, do passado, me desculpando por nem perguntar como estás, mas a ansiedade tomou conta de mim e esqueci-me de você. 

Um beijo carinhoso

X.  
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" [...] Mas, uma explicação tão simples, como são os grandes achados da área do conhecimento, me trouxe à realidade: Assim como é necessário o exercício regular, a caminhada gradual para se adquirir o condicionamento físico, também é preciso exercitar a escrita, com regularidade, para se adquirir o domínio dela, como em um tipo de condicionamento intelectual. Foi o que aprendi com você! Com a explicação veio o entendimento e também uma vontade imensa de praticar a escrita. Logo mais, continuo no que deu essa mudança extraordinária em minha forma de agir. [...]" (A.L. 19.04.2010).

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" [...] Só pelo fato de termos aprendido que existem técnicas que nos ajudam a elaborar bons textos nos deu uma nova mentalidade e, até, certa tranquilidade em nossa vida profissional. A coragem para enfrentar e vencer o medo que antes nos assolava levaram-nos a criar o saudável hábito de escrever e, com isto, conseguimos até produzir boas redações [...]" (J.M.S. 15.05.2010)

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"Diz a história que Sócrates caminhava pelo mercado de Atenas observando atentamente o que diziam as pessoas no seu dia-a-dia, a tal ponto curioso que nem mesmo uma discussão numa banca de peixes, a compra de uma tira de pano ou a barganha por um cacho de uvas lhe escapava.

A tudo o velho filósofo via com os olhos de ver, penetrando no sentido das mais comezinhas motivações para encontrar ali o que de humano havia.

E ele sabia o tempo todo que o que havia de mais humano no homem era a capacidade de dizer, o divino que se constituía na Palavra.

E nas palavras ele encontrava a fonte do Conhecimento.

A partir do saber só de experiências feito, dos saberes do povo que vive e labuta, vive e sofre, vive e se extasia, vive e morre, elaborava Sócrates o refinamento de uma idéia, desnudava o verdadeiramente vivo pensamento – mas o pensamento originado do diálogo, de uma espécie amorosa de diálogo que leva o outro a descobrir e descobrir-se por inteiro.

Só sei que nada sei.

A experiência de nosso encontro na sala de aula naquele sábado um tanto frio foi, a seu modo, uma experiência socrática em que, juntos, questionamos os nossos saberes e debulhamos as nossas angústias diante de um mundo que parece se construir sobre escombros e andar sobre brasas e em ruínas.

Amorosa e democraticamente, trocamos impressões sobre o mundo, o saber, a educação – ah, a educação – e a política.

A presença de uma facilitadora com espírito libertário e socrático nos possibilitou abrir o coração e as cortinas da alma para o debate lúcido e altivo, com postura altruísta e solidária, sem fugir ao embate que leva à reflexão produtiva.

Assim é que uma certa manhã não será apenas o começo de mais um novo dia se mais de um se reunir em nome do aprender.

Assim é que aquela manhã não foi apenas mais uma entre tantas manhãs, mas sim um amanhã que não se contentou em somente alvorecer, e segue ressurgindo no canto infinito dos galos que constroem a cada dia uma nova manhã com seus infinitos cantos de galo". (R.P.V. 07.10.2008)

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